segunda-feira, 20 de março de 2017

Maior igreja evangélica do Brasil, Assembleia de Deus articula criação de partido político

O termo "cristão" e variações aparecem no nome de seis dos 56 partidos na fila do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para virar a 36º legenda brasileira. Tem o PEC (Partido Ecológico Cristão), o PPC (Partido Progressista Cristão)...

O PRC (Partido Republicano Cristão) leva vantagem sobre os concorrentes: está sendo articulado com ajuda da Assembleia de Deus, a maior igreja evangélica do Brasil (30% dos 42 milhões de fiéis no Censo 2010, sendo que o total de evangélicos já saltou para três em dez brasileiros).

Essa gigantesca rede de fé deve facilitar a coleta de assinaturas mínimas, recolhidas em ao menos nove Estados, que o TSE exige para formar um novo partido –486 mil, ou 0,5% dos votos válidos na última eleição para a Câmara.

Já foram 300 mil registradas em cartórios país afora, calcula o presidente do PRC, deputado Ronaldo Fonseca (Pros-DF), coordenador da bancada de 24 deputados ligados à Assembleia de Deus.

Fonseca assinou relatório pró-Eduardo Cunha (PMDB-RJ) em 2016, quando o agora ex-parlamentar presidia a Câmara e tentava anular sua cassação na Casa. Os dois são assembleianos.

Fundada por missionários suecos em 1911, a Assembleia de Deus (AD) se multiplicou em várias ramificações, e elas não necessariamente dialogam entre si. Não raramente, estão em lados avessos da política (algumas ficaram com a petista Dilma Rousseff, outras com o tucano José Serra, e parte com a então verde Marina Silva em 2010, por exemplo).

A AD Ministério do Belém (que, apesar do nome, tem sede paulista) controla a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. É essa ala que fomenta a criação do PRC. O secretário-geral do partido será o deputado Paulo Freire (PR-SP), filho do pastor José Wellington Bezerra da Costa, líder da AD Belém.

Suas irmãs também estão no Legislativo: Marta Costa é deputada estadual em São Paulo e Rute Costa, vereadora paulistana. "Como instituição, oficialmente, igreja não tem partido, a lei não permite. Mas ela pode ter representatividade. Isso está sendo trabalhado [por meio do PRC]", diz à Folha o coordenador político da convenção das ADs, pastor Lélis Marinhos.

A principal bandeira da nova sigla será a família, diz. "Aquela chamada tradicional, com o princípio básico bíblico da família hétero." Segundo Marinhos, há fóruns dedicados a preparar lideranças para o quadro partidário.

Pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, Diogo Rais lembra do abuso de poder religioso nas eleições, como um candidato pedir voto em igrejas –em 2016, o prefeito reeleito de Penápolis (SP) foi alvo de ação, depois desconsiderada por um juiz. Motivo: um pastor o exaltou em culto e chegou a dizer que o acessava com facilidade ("quando preciso falar com ele, tenho o WhatsApp dele").

Mas seria preconceito achar que pessoas de fé não têm vez na política, diz Rais. "Por que ter legendas que representem trabalhadores ou ambientalistas, mas não religiosos?"

O pastor Silas Malafaia lidera uma AD, a carioca Vitória em Cristo –e é contra igreja ter vida partidária.

"A hora em que ela quer se meter em fazer partido político, perde sua essência. Aí, minha filha, a gente vai se perder", diz o pastor, que contudo apoia o apadrinhamento de candidatos. Seu próprio irmão, Samuel Malafaia, é deputado estadual no Rio. O religioso também manifesta simpatia pelo prefeito João Doria, do PSDB-SP.

O deputado Fonseca estima que o PRC já saia com uma bancada de pelo menos 20 deputados, que em março de 2018 poderão se aproveitar de uma janela da Justiça que autoriza o troca-troca partidário sem sanções eleitorais.

A ideia é protocolar o pedido de criação do partido no TSE até o fim do ano e investir em cargos legislativos em 2018. Fonseca quer que o número da sigla seja 80. "Ou oito ou 80, né?"

Fonte: Folha de São Paulo

Nenhum comentário:

“Não chame meninas de princesas”, diz campanha da Avon

Uma campanha da Avon tem gerado polêmica nas redes sociais por pedir aos pais que não chamem suas filhas de “princesas”, dizendo que o elo...