sábado, 3 de janeiro de 2015

Do fundo do poço à volta por cima: a história de fé do goleiro do Cruzeiro

Open in new windowMuita gente sabe que o goleiro Fábio é evangélico, mas poucos conhecem como a religião entrou na vida do jogador, justamente na fase mais difícil dele no Cruzeiro.

No dia do aniversário do clube, a reportagem do GloboEsporte.com relata esse momento de acordo com amigos e familiares do capitão celeste. O ídolo, que levantou as duas últimas taças do Brasileirão, teve dois episódios marcantes, quando a fé influenciou a permanência dele na Toca da Raposa diante de oportunidades concretas de se transferir para o exterior. No primeiro semestre de 2015, Fábio terá a chance de superar a marca do meio-campo Zé Carlos, que disputou 633 jogos pelo Cruzeiro, e se tornar o atleta que mais atuou pela Raposa. Feito inacreditável para quem acompanhou o início da carreira do goleiro.
A conversão
Antes de se tornar evangélico, Fábio era um jovem atleta como dezenas de milhares espalhados pelo mundo. A fama e o dinheiro o levaram para um caminho muito comum aos jogadores de futebol: balada, bebidas e mulheres. Ainda no União Bandeirantes, no Paraná, o jovem goleiro já dava muita importância ao lado social, como conta seu sobrinho Lucas.

– O salário, ele recebia em vale alimentação. Eu me lembro de algumas histórias em que ele reunia a galera toda e torrava tudo em churrasco.
O pastor Jorge Linhares também conta como era o perfil de Fábio antes da conversão.

- Acabava a concentração, ganhou o jogo, a segunda e a terça-feira era para beber. Eu sou o Fábio jovem, aproveitador, caiu na rede é peixe. Vamos beber, vamos farrear. No outro dia, vamos treinar.

A esposa Sandra Maciel, que está com o jogador há quase 20 anos, foi peça fundamental para a mudança. Ela conta que Fábio associava quase tudo ao álcool.

- O Fábio, antes, eu falo que a alegria do meu marido, infelizmente, mesmo sendo um atleta, era a bebida. O Fábio só se alegrava na bebida.

O goleiro se sentiu embriagado pela última vez no dia 29 de abril de 2007. Mas a causa não foi o álcool. Uma mistura de sentimentos no primeiro jogo da final do Campeonato Mineiro, contra o Atlético-MG, fez o goleiro se sentir no fundo do poço. O placar foi de 4 a 0 para o maior rival. Num gol, Fábio acabou levando um chapéu de Danilinho, em outro, cometeu o pênalti. Veio o terceiro, e segundos depois o quarto, talvez o mais marcante da carreira. Fábio ainda buscava a bola no fundo das redes quando a equipe deu novo saída no meio-campo. Vanderlei a recuperou rapidamente, e percebendo o goleiro de costas, mandou para as redes para delírio dos atleticanos que lotavam o Mineirão. Como se não bastasse a participação direta em três gols do rival, Fábio ainda sofreu uma séria contusão no joelho ao se chocar contra a trave. Os médicos previam seis meses longe dos gramados.

- Quando ele machucou o joelho, ele ficou muito preocupado, pensou que era o fim. Perdemos para o Atlético-MG na final por 4 a 0 e foi realmente muito difícil – relembrou Geovanni, ex-jogador do Cruzeiro e amigo pessoal de Fábio.

A dor da contusão se agravou com o sofrimento do mau momento profissional. Com uma imobilização no joelho, Fábio passava o tempo em frente à televisão.

- Ele ficava em casa trocando de canal. Nisso ele parou num programa, e bem na hora o pastor disse que estaria rezando para quem estivesse com problema no joelho - narra Sandra.

- Ele estava assistindo um programa de televisão, um pastor orando. Ele recebeu aquela oração e sentiu uma espécie de calor no joelho - revela Regis Danese, cantor gospel e amigo do camisa 1.

A partir dali, Fábio passou a frequentar a Igreja Batista Getsêmani, na região da Pampulha. Os vícios ficaram para trás, e o goleiro passou a viver uma rotina diferente daquela que estava acostumado.

- Depois que ele se converteu, passou a se dedicar mais, passou a ter mais carinho com o corpo, com a parte física, com a família, explica o amigo Renê Salviano.

Contrariando o prognóstico dos médicos, Fábio se recuperou de forma surpreendente da contusão no joelho e voltou a jogar em menos da metade do tempo previsto para a recuperação. Coincidência ou não, desde então, Fábio se tornou ídolo e um nome importante na história do Cruzeiro.
Conquistou cinco campeonatos estaduais (2006, 2008, 2009, 2011 e 2014) e dois Brasileiros (2013 e 2014), além de uma Copa do Brasil, em 2000, na primeira passagem dele pela Toca da Raposa, na ocasião, como reserva de André.

- Tudo que ele é e tudo que ele conquistou, veio através da conversão – conclui o sobrinho Lucas.

- O Fábio não jogador é um ser humano exemplar, um cara muito família. Acho o Fábio um cara excelente, destaca Pedro Lourenço de Oliveira, amigo do goleiro.

A paciência do capitão cruzeirense com os fãs é uma característica destacada por vários amigos do jogador.

- Ele é um referencial para as crianças. Quem tem um ídolo vivo, não precisa do Batman, não precisa do Homem-Aranha, não precisa do Capitão América - continuou Oliveira.
A recusa espanhola
A temporada 2007 foi emblemática para o jogador. Depois de todos os percalços na derrota na final do Mineiro, o contrato do goleiro se encerraria em dezembro daquele ano. A transferência para o Osasuña-ESP estava praticamente fechada.

A mulher Sandra conta que a família do goleiro já estava com uma rotina muito mais religiosa, cerca de sete meses após a conversão. Ela viajou ao lado de Fábio e do filho Pablo, para assinar o contrato com o clube espanhol. Sandra e o filho ficaram no hotel, enquanto Fábio foi até o clube assinar a papelada.

- Era coisa de assinar o contrato e ir embora - lembra Sandra.

Mas o que era para ser resolvido em pouco tempo se arrastou por horas. Com voo marcado para voltar ao Brasil, Sandro conta que ligou para Fábio. Ela relembra o diálogo.

- Ele falou: ”Tudo que está aqui no contrato, estou tendo que negociar de novo. Mas calma, que eu já consegui tudo, só está faltando a porcentagem do passe.” Eu perguntei se ele tinha se esquecido do que a gente orou. Ele disse: “Eu me esqueci”. E desligou o telefone.

Depois do fim da ligação, Sandra não esperou muito até que Fábio voltasse até o quarto do hotel. A mulher do goleiro perguntou o que ele havia feito.
- Eu rasguei o contrato - disse Fábio.

Os três deixaram o hotel e o empresário do clube espanhol xingava Sandra, achando que ela havia influenciado o goleiro na decisão de permanecer o Brasil. As lágrimas nos olhos de Fábio e Sandra, durante o caminho de volta, foram inevitáveis. Era o sonho do atleta de jogar no futebol europeu.

Eles voltaram para o Brasil, e menos de uma semana depois, Fábio havia renovado contrato com o Cruzeiro, por mais dois anos.

- Voltamos para o Brasil. E foi quando ele renovou com o Cruzeiro. O Senhor nunca nos permitiu sair do Cruzeiro - conclui Sandra. (Confira no vídeo abaixo a reportagem sobre a fé que moveu o time cruzeirense na conquista do título brasileiro no ano passado).
Fábio e o Milan
A situação se repetiu em 2010. Mas dessa vez, o clube interessado era o poderoso Milan, da Itália. Sandra, Fábio e o empresário do jogador já haviam conversado, e a transferência para o futebol italiano estava muito bem encaminhada. No entanto, a mulher do goleiro contou um episódio que mudou o rumo das negociações.

- A gente estava na igreja e só eu, o empresário e o Fábio sabíamos da negociação, porque a gente resguarda muito esse tipo de situação. Era uma semana decisiva e um senhor chegou e disse para o Fábio: “Deus manda dizer que esse time vermelho e preto que você está negociando não é o que Deus quer para sua vida”- conta Sandra, emocionada.

O senhor deu o recado e foi embora. A frase foi suficiente para Fábio. O goleiro mudou de opinião e decidiu recusar a proposta do Milan. Novamente ele renovou com o Cruzeiro.
O conselheiro
Não é preciso muito esforço para perceber que Fábio é um homem muito religioso. O jogador sempre cita Deus em suas entrevistas e faz questão de apontar para os céus a cada defesa durante os jogos. Enquanto o Cruzeiro conquistava o Brasil com um futebol envolvente, nos bastidores do clube borbulhavam reuniões religiosas entre jogadores e as famílias dos atletas.

O sobrinho Lucas acredita que Fábio relaciona o futebol com a religião de uma maneira muito natural.

- Ele fala com muito carinho. Você percebe que ele não força nada. É a gratidão que ele tem por tudo que Deus fez na vida dele.

Independentemente da religião, os jogadores e a comissão técnica do Cruzeiro tem feito da fé, nos dois últimos anos, um dos principais aliados para o bom futebol apresentado dentro de campo. Longe da Toca da Raposa e dos jogos, os atletas se reúnem, muitas vezes na casa de Fábio, para cultos religiosos.

- Geralmente os times têm as panelinhas, um grupinho aqui, um grupinho ali, mas no Cruzeiro não, é todo mundo unido - revela o amigo Régis Danese, que participa da maioria das reuniões na casa de Fábio e Sandra.
Em 2014, em alguns desses encontros, os jogadores Marcelo Moreno e Willian Farias, bem como suas mulheres, se converteram à religião evangélica. Eles entraram para um grande grupo de jogadores evangélicos do Cruzeiro, que conta com Fábio, Rafael, Elisson, Ceará, Léo, Bruno Rodrigo, Samudio, Tinga, Marlone, Dagoberto e Willian, dentre outros.

E Fábio tem grande participação neste processo de mudança de comportamento do grupo. Além de ser uma liderança dentro de campo, com a faixa de capitão, o goleiro atua como conselheiro fora das quatro linhas. O atleta ajuda os companheiros com orientações financeiras e na solução de problemas conjugais.

Com contrato até abril de 2016, Fábio quer se aposentar no Cruzeiro. Até lá ele espera conquistar outros título e bater a marca para tornar o jogador que mais atuou pelo clube.

Fonte: Globo Esporte.com

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