Igrejas europeias podem ser o próximo alvo dos terroristas

Para o professor e escritor Philip Jenkins, depois do ataque ao jornal Charlie Hebdo poderá acontecer um grande ataque contra algum símbolo do cristianismo europeu.

Em seu texto publicado no site católico Aleteia, Jenkins acredita que os recentes acontecimentos no Oriente Médio também fazem com que os ataques contra igrejas sejam vistos como muito mais prováveis.

Confira abaixo a íntegra do texto do professor e escritor Philip Jenkins:

Depois do Charlie Hebdo: as igrejas europeias podem ser o próximo alvo?


Mais uma vez, um hediondo ataque terrorista obriga os europeus a encarar algumas realidades políticas e culturais básicas. O massacre na redação parisiense da revista Charlie Hebdo levanta questões fundamentais e preocupantes sobre a liberdade de expressão e sobre o delicado equilíbrio entre os direitos civis e o policiamento eficaz. Mas para os cristãos, e para os católicos especificamente, os atuais perigos do terrorismo devem levar a sérias considerações sobre várias questões bastante diferentes. Olhando para a Europa contemporânea, precisamos levar em conta um evento funesto que ainda não ocorreu, mas que quase com certeza vai ocorrer nos próximos anos. A não ser que as circunstâncias políticas mudem radicalmente, vai haver em breve um grande ataque contra algum símbolo icônico do cristianismo europeu.

Esta afirmação não exige dons de profecia. Faz anos que os segmentos mais extremistas do islamismo radical vêm proferindo ameaças diretas contra a fé e a prática cristã. E é irrelevante que as suas ações estejam em contradição com as interpretações tolerantes da tradição do islã. Grupos radicais como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico afirmam que os cristãos de hoje são idólatras a quem não se aplicam as promessas de proteção que existem no alcorão para “os povos do livro”. Atacar igrejas cristãs, para eles, é lutar contra a idolatria e contra os infiéis.

Os grupos terroristas já alvejaram indivíduos e instituições cristãs para provocar efeitos máximos de choque. Em 1995, um grupo árabe com sede nas Filipinas projetou assassinar o papa João Paulo II durante a sua visita àquela nação, como forma de distrair as atenções mundiais de outro plano terrorista: o de atacar aviões comerciais norte-americanos (o turco Ali Agca disparou contra o mesmo papa em 1981, mas ele não estava agindo em nome da causa jihadista). Quando o papa Bento XVI fez o seu polêmico discurso de Regensburg, em 2006, grupos muçulmanos extremistas organizaram protestos do lado de fora da catedral de Westminster, a igreja católica mais importante da Inglaterra, enquanto um porta-voz advertia que qualquer um que insultasse o islã deveria esperar nada menos que a execução.

Catedrais e grandes igrejas se destacam nas listas de alvos abortados de células islâmicas. Esses ataques frustrados já miraram contra as catedrais de Estrasburgo e de Cremona, por exemplo. A Al-Qaeda já fez ameaças contra a grande catedral de Bolonha: um afresco medieval do Juízo Final, presente nesse templo, retrata o profeta Maomé sendo jogado no inferno, com uma cobra em volta do seu corpo nu e com um demônio esperando por ele. Ativistas muçulmanos italianos protestaram frequentemente contra esta obra. Também é sensível o risco que corre o santuário espanhol de peregrinações de Santiago de Compostela, dada a sua dedicação a São Tiago, o “Matamoros”, ou seja, o “matador de mouros”. Outros importantes edifícios cristãos, embora não ofendam especificamente o sentimento islâmico, também podem atrair a violência terrorista justamente por causa do seu enorme valor simbólico.

Os recentes acontecimentos no Oriente Médio fazem com que os ataques contra igrejas sejam vistos como muito mais prováveis. Durante a última década, os extremistas em toda aquela região atacaram deliberadamente edifícios e comunidades cristãs para destruí-los, em particular na Síria e no Iraque. Os ataques-relâmpago realizados contra igrejas no Egito em 2013 foram os piores e mais numerosos no país desde o ano de 1321. O Iraque tem sido cenário constante do massacre de clérigos e fiéis cristãos, em geral durante as grandes celebrações, como o Natal. Em todo o mundo, aliás, o Natal é um tempo excepcionalmente perigoso para as igrejas localizadas em países como a Nigéria ou o Quênia: é a época em que os ataques suicidas são mais temidos. A Al-Qaeda e o Estado Islâmico, os principais autores dessas táticas, têm, ambos, forte presença em solo europeu.

As autoridades de segurança europeias, naturalmente, estão bem consciente desses perigos. Vejam-se os controles de segurança para quem quer entrar na Praça de São Pedro, em Roma. Por definição, no entanto, as igrejas e seus cultos precisam ficar abertos ao público. Para os planejadores terroristas, elas são como frutas em galhos baixos ao lado da estrada.

Como uma espécie de exercício intelectual, deveríamos pensar nas consequências de tais atos potenciais de terrorismo. Qual seria o efeito cultural ou político de um ataque que devastasse edifícios tão queridos como a abadia de Westminster, a catedral de Notre Dame, a de Santiago de Compostela, o Duomo de Florença ou a própria basílica de São Pedro? Ou de ataques simultâneos, como os que acontecem com frequência em Bagdá, durante a Missa do Galo em duas ou mais cidades europeias?

Os efeitos imediatos, sem dúvida, seriam o luto, o pesar e a fúria, e os líderes muçulmanos estariam entre os primeiros a condenar esse ataque hipotético, e com absoluta sinceridade. Eles declarariam que os terroristas representam uma parcela extremista da fé, que viola os seus preceitos básicos. As autoridades da Igreja, por sua vez, responderiam certamente com palavras de perdão e de reconciliação. E todos nós poderíamos esperar massivos encontros e vigílias inter-religiosas em várias cidades de todo o planeta.

É difícil, porém, evitar o aumento da tensão e da confrontação religiosa. Tais ataques resultariam em dramáticas e militarizadas operações de segurança em torno de outras igrejas, o que promoveria uma sensação de cerco e incentivaria a retórica de cruzada e jihad. O Vaticano descreveu inicialmente os ataques no metrô de Londres, em 2005, como "anticristãos", mas retirou este comentário quando ele foi acusado de ser “inflamatório”. Em outras circunstâncias, porém, motivos flagrantemente anticristãos podem ser impossíveis de esconder.

Podemos imaginar os cristãos europeus adquirindo uma nova consciência da sua cultura e do seu patrimônio, redescobrindo o senso de história cristã que eles sempre tiveram por óbvio. Na Inglaterra, por exemplo, a antiga bandeira cruzada de São Jorge era praticamente desconhecida há quarenta anos, mas hoje é um símbolo de identidade nacional. Poderíamos também esperar uma reforçada militância dos imigrantes do hemisfério sul que vivem na Europa, milhões dos quais são cristãos e cujos países de origem são cenários de violência inter-religiosa. Deveríamos esperar uma violência retaliatória? Nacionalistas de extrema-direita poderiam, eles próprios, adotar uma retórica de cruzada e atacar mesquitas e centros islâmicos.

Eu não tenho a pretensão de prever as consequências em suas minúcias. Mas seria valioso, ainda assim, pensarmos nessas atrocidades potenciais antes que elas aconteçam de verdade.


Fonte: Aleteia

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