terça-feira, 31 de março de 2015

O domínio dos evangélicos na política brasileira



Segmento religioso elegeu 78 parlamentares, tem a presidência da Câmara, influencia nas comissões técnicas e segue em busca de mais espaço.

A ala de deputados e senadores que unem política e religião elegeu, em 2014, um número recorde de 78 representantes, conquistou a presidência da Câmara pela primeira vez e busca outros postos-chave em Brasília a fim de ampliar seu nível de influência. Entre as prioridades do grupo estão a limitação a reivindicações do movimento gay e o combate à flexibilização das leis sobre drogas e aborto.

Os 75 deputados evangélicos identificados pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), aos quais se unem três senadores, superam bancadas importantes da Câmara, como a sindical ou a feminina, com 51 integrantes cada uma. Mas, para deixar o parlamento à sua imagem e semelhança, os religiosos também miram em postos-chave no Congresso.
O principal nome do grupo, hoje, é o recém-eleito presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ). Fiel da Assembleia de Deus, teve entre seus cabos eleitorais outros representantes do rebanho evangélico como o deputado Sóstenes Cavalcante (PSD/RJ) – braço político do pastor Silas Malafaia em Brasília. À frente da Câmara, Cunha desarquivou projetos como o que cria o Dia do Orgulho Heterossexual e prometeu não colocar em pauta proposições que facilitem o aborto “nem que a vaca tussa”.

Ainda estão em disputa outros cargos que podem facilitar a aprovação de propostas adotadas pela bancada, como a definição de família que exclui casais gays, e barrar iniciativas como a legalização da maconha e a criminalização da homofobia. Um dos postos visados é a chefia da comunicação da Câmara, até hoje ocupada por servidores de carreira. O nome mais cotado para assumir a função é o do deputado maranhense Cleber Verde, membro da bancada evangélica pelo PRB – partido ligado à Igreja Universal. Embora o cargo não interfira na tramitação de projetos, é relevante por definir como a Câmara divulga discussões polêmicas à sociedade. “Ao colocar um político evangélico no comando da comunicação, se compromete o caráter laico da casa”, reclama a deputada Érika Kokay (PT/DF).

A frente religiosa também disputará o comando da bancada feminina da Câmara. Uma das cotadas é presbiteriana Clarissa Garotinho (PR/RJ), filha do ex-governador do Rio Anthony Garotinho. Ela obteve a segunda maior votação entre os deputados evangélicos, com 335 mil eleitores, atrás apenas de Marco Feliciano (PSC/SP). Como o grupo feminino faz articulações políticas a respeito de temas como aborto, a presidência do grupo tem importância estratégica.

Cargos em comissões, como a de Constituição e Justiça, Seguridade Social e Família e de Direitos Humanos e Minorias, também deverão ser buscados pela bancada, já que projetos envolvendo questões de família, direito reprodutivo e outros temas considerados prioritários passam por elas antes de ir a plenário.

“Há uma maior busca por visibilidade e espaço político relevante como uma reação a avanços recentes em áreas como moral sexual e direitos de homossexuais e minorias”, avalia a doutora em Ciências da Comunicação Magali do Nascimento Cunha, professora da Universidade Metodista de São Paulo e especialista na área de mídia, religião e política.

Um dos gaúchos evangélicos, o deputado Ronaldo Nogueira (PTB) afirma que a meta do grupo é defender a Constituição: “O compromisso da bancada é zelar pela democracia e pela Constituição. Gays podem viver juntos, mas casal só é formado por homem e mulher.

Os parlamentares evangélicos contam com uma rede de bispos, pastores e fiéis alinhados com a visão de mundo de suas igrejas e dispostos a ocupar espaços cada vez mais importantes em Brasília a fim de fazer frente ao setor mais progressista do Congresso, representado por nomes como os deputados Jean Wyllys (PSol/RJ) e Érika Kokay (PT/DF), defensores de causas ligadas a homossexuais, minorias e flexibilização de leis envolvendo drogas e aborto.
Dos deputados goianos, apenas João Campos e Fábio Sousa
G oiás tem três senadores e 17 deputados federais.

Apenas João Campos e Fábio Sousa, ambos do PSDB e pastores, integram a Frente Parlamentar Evangélica no Congresso Nacional. Campos é pastor da Assembleia de Deus e Sousa da Fonte da Vida.

A Frente Parlamentar Evangélica deve organizar, este ano, um Congresso em Brasília (DF) para reunir todos os políticos evangélicos com mandato. A intenção é que prefeitos, vereadores, deputados e senadores participem do encontro. A informação vem à tona após a eleição do novo presidente da Frente Parlamentar Evangélica, deputado goiano João Campos (PSDB).

Campos, que ficou nacionalmente conhecido por ser autor do projeto de lei apelidado como “cura gay”, sucede o assembleiano Paulo Freire (PR-SP). O polêmico projeto previa a derrubada da proibição do Conselho Federal de Psicologia (CFP) aos profissionais da área de prestarem atendimento a homossexuais que buscassem ajuda para mudar sua orientação sexual. Atualmente, o código do CFP não permite que os psicólogos ofereçam ajuda nesses casos, apenas em situações inversas.

O intenção de João Campos é mobilizar esses parlamentares na luta pela aprovação do Estatuto do Nascituro, projeto que foi apelidado por ativistas pró- aborto de “bolsa-estupro”. E justifica: “Se aprovar o Estatuto do Nascituro, acabou o debate sobre o aborto”, disse Campos, que é opositor às propostas de legalização do aborto. O projeto estabelece garantias legais ao bebê em gestação e a embriões congelados, além de oferecer assistência financeira a gestantes que tenham sido vítimas de estupro e que decidam levar sua gravidez adiante ao invés de abortar.

Outra proposta que receberá o empenho da bancada evangélica é a PEC 99/2011, que, se aprovada, permitirá que entidades religiosas de âmbito nacional, como, por exemplo, a Convenção Batista Brasileira (CBB) ou a Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB), possam entrar com ações no Supremo Tribunal Federal (STF) para questionar e pedir declaração de inconstitucionalidade para leis que firam princípios de liberdade de expressão, fé e culto, entre outros casos. A PEC 99/2011já foi aprovada já pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Federal.

O deputado Fábio Sousa diz que apoia os projetos defendidos pelo segmento evangélico no Congresso Nacional, mas adianta que não se limitará às bandeiras da Frente. “Quero ser fiel aos princípios que tenho e que se coincidem com os da Frente Parlamentar Evangélica, mas pretendo ter uma atuação mais abrangente no Parlamento”.

Fábio Sousa sustenta que pretende participar de debates no Congresso Nacional sobre o agronegócio, ciência e tecnologia, combate às drogas, educação e segurança pública. “O País precisa de reformas em diversas áreas e pretendo participar dessa discussão. Não se pode limitar a atuação parlamentar a apenas temas religiosos, pois se torna necessário o amplo debate, em favor do conjunto da sociedade brasileira.”
Saiba como a bancada evangélica pode mudar a vida do cidadão
Com vigor reforçado pela eleição de 78 parlamentares, incluindo o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), a bancada evangélica no Congresso deve aumentar a pressão para aprovar projetos de interesse do grupo e barrar outros.

Várias das propostas podem ter impacto considerável no dia a dia dos brasileiros, como o chamado Estatuto da Família. O texto em discussão estabelece que um casal pode ser formado apenas por homem e mulher, dificultando o reconhecimento das uniões entre gays e até o direito à adoção de crianças.

Outro projeto procura alterar o ensino prestado em todas as escolas públicas e privadas do País para incluir a doutrina criacionista nas aulas (segundo a qual Deus criou a vida e todas as espécies), e assim disputar espaço com a teoria da evolução (segundo a qual todo ser vivo descende de um ancestral comum). Outro foco da bancada envolve o combate a qualquer proposta que procure legalizar o acesso a drogas ou a realização do aborto.
Cultos no plenário das comissões
“O Senhor disse que aqueles que querem viver piedosamente serão perseguidos. Estamos vivendo um ensaio daquilo que ainda virá com mais intensidade contra os cristãos”. Assim se expressam os deputados-pastores, principalmente em reuniões no plenário das comissões da Câmara Federal.

A presença de evangélicos na política – assim como a de católicos ou espíritas – não é novidade. Partidos de inspiração cristã existem em países como Suíça, Inglaterra e Holanda sem que isso signifique qualquer ameaça à democracia. A mulher mais poderosa da Europa, a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, pertence à tradicional União Democrata-Cristã.
A Alemanha tem como presidente Joachim Gauck, um conhecido pastor luterano. O maior partido do Parlamento Europeu, o European People’s Party, é composto fundamentalmente por democratas-cristãos.

Fonte: Diário da Manhã

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