quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Ressurreição de Lázaro, os Judeus e Tradição Judaica (João 11:1-44)

resurrection of Jesus“1 Ora, um certo homem estava doente, Lázaro, de Betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta”.
A história começa introduzindo-nos Lázaro (em hebraico Eliezer, que significa  Deus vai ajudar) que reside em Betânia (em hebraico Beit Aniah, o que significa a Casa dos Pobres). Estes nomes hebraicos não são coincidência.
Betânia não ficava longe de Jerusalém (havia também uma Betânia do outro lado do rio Jordão). Há muitas razões para pensar que esta era uma aldeia muito especial. É provável que esta aldeia tenha servido como um dos centros diaconais de Judeus Essênios. Estes centros eram espalhados por todo o antigo mundo Judaico. Os Essênios (uma seita Judaica) eram conhecidos por seu compromisso de servir os pobres e doentes. Aliás, parece haver uma forte ligação entre os setores da comunidade dos Essênios e os primeiros crentes Judeus do movimento de Jesus, mas este é um assunto para outra ocasião.
“2 E Maria era aquela que ungiu o Senhor com bálsamo e lhe tinha enxugado os pés com os seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava doente”.
É interessante e surpreendente que João faz este comentário tão cedo. A razão é porque o incidente de Maria ungindo Jesus não é registrado até o próximo capítulo. Isto quer dizer que João escreveu seu Evangelho depois dos outros Evangelhos, esperando que as pessoas estivessem familiarizadas com a história  ou, mais provavelmente, que a história já houvesse circulado por via oral e João assumiu que os ouvintes estivessem familiarizados com ela.
“3 Então as irmãs mandaram dizer a ele: “Senhor, aquele que tu amas está doente”. 4  Mas Jesus, ouvindo isto, disse: “Esta doença não leva à morte. É para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela”.
Aqui há paralelos notáveis​​  entre a ressurreição de Lázaro e a cura do homem que era cego de nascença. Em um caso, a luz é dada e, no outro caso, a vida. Curiosamente ambos os temas são os principais temas  citados em João 1:4 : “4 Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens.  5  A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela”. Também, a razão tanto para a morte de Lázaro como para a cegueira do homem era  a glória de Deus (João 9:2-3 e João 11:4).

“5  (Ora, Jesus amava Marta e a sua irmã e a Lázaro.) 6  Então, quando soube que Lázaro estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde estava. 7  Depois disto, disse a seus discípulos: “Vamos para a Judéia de novo”.
Se lermos os vss. 5-6 eles fazem pouco sentido (já que Jesus os amava, por que ele não veio imediatamente). Se lermos o texto com atenção, rapidamente vamos perceber que o versículo 5 é um comentário inserido entre parênteses entre os vss. 4 e 6. Isso significa que o versículo 6 (“Então, quando ele ouviu …”) continua como o fim do vs.4 (“é para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela.”) Assim, para que ninguém pensasse que Jesus não amava verdadeiramente a família, foi adicionado o comentário entre parênteses  – “Ora  (você deve saber ), Jesus amava a Marta e a sua irmã e a Lázaro”.
“8 Os discípulos disseram-lhe: “Rabi, ainda agora os Judeus procuravam apedrejar você, e você vai lá de novo?” 9  Jesus respondeu: “Não são doze as horas do dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo. 10  Mas, se alguém andar de noite, tropeça, porque a luz não está nele”.
Se tentarmos entender os Judeus aqui como sendo o povo Judeu, a frase soaria completamente ridícula. Claramente, as autoridades hierosolimitanas que buscavam a vida de Jesus estão em consideração aqui. Temos que continuar a lembrar da afirmação de João no prólogo que resumiu a vida de Jesus, morte e ressurreição:  “A luz resplandece nas trevas,  e as trevas não prevaleceram contra ela” (João 1:5) Jesus está se referindo a luz que ilumina o mundo. Lembre-se, em João o mundo nem sempre significa a humanidade em geral, às vezes significa a Judéia e seus habitantes. (João 7:3).
“11 Depois de dizer essas coisas, disse-lhes: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou despertá-lo.” 12  Os discípulos disseram-lhe: “Senhor, se ele está dormindo, ele vai se recuperar.” 13  Ora Jesus tinha falado da sua morte, mas eles pensavam que ele quis dizer repouso do sono. 14  Então Jesus lhes disse claramente: “Lázaro morreu, 15  mas eu estou alegre  por não ter estado lá com ele, de modo que vocês  vão crer. Mas vamos ter com ele. ” 16  Então Tomé, chamado Dídimo, disse aos seus condiscípulos: “Vamos nós também, para que possamos morrer com ele.” 17  Ora, quando Jesus chegou, ele descobriu que Lázaro já estava há quatro dias na sepultura”.
Jesus esclarece para seus discípulos que seu amigo Lázaro morreu. O que é importante no vs.17 é a declaração de João de que quando Jesus chegou a Betânia, já era o quarto dia. Isso explica por que depois de ouvir a notícia de que Lázaro estava muito doente,” ele ficou ainda dois dias no lugar onde estava.” ( João 11:6 ) Jesus sabia quanto tempo levaria para viajar para Betânia. Ele estava determinado a chegar, não só depois da morte de Lázaro, mas quando, de acordo com a crença Judaica popular, a ressurreição não era mais possível – no quarto dia!
“18 Betânia ficava perto de Jerusalém, cerca de duas milhas, 19  e muitos dos Judeus tinham ido visitar Marta e Maria para consolá-las  acerca de seu irmão”.
Lázaro, que pode ter sido um Essênio,  e sua família eram dedicados totalmente ao serviço dos pobres e doentes em Betânia. Ele era muito respeitado pelos hoi Ioudaioi. Muitos, na esperança de trazer-lhes o conforto tão necessário, chegaram a chorar junto com Marta e Maria. É nesta história que Jesus faz o seu ataque final contra a fortaleza da incredulidade dentro da elite sacerdotal de Jerusalém. Ele estava prestes a ressuscitar um membro respeitado da sociedade religiosa hierosolimitana  sob as vistas dos membros do hoi Ioudaioi. Isso exigiria uma resposta de fé nEle. Maria e Marta estavam sendo consoladas por seu próprio povo da classe dominante  hierosolimitana .
“20 Então, quando Marta ouviu que Jesus estava chegando, foi-lhe ao encontro, mas Maria ficou sentada em casa. 21  Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22  Mas, mesmo agora eu sei que tudo quanto pedirdes a Deus, Deus vai lhe dar”.
Marta disse a Jesus que se ele tivesse vindo durante os três dias em que a ressurreição era possível, ele poderia ter ressuscitado seu irmão. Sua fé foi ainda mais longe e disse que “mesmo agora sei que tudo quanto pedirdes a Deus, Deus vai lhe dar!”
“23 Jesus disse-lhe: “Teu irmão há de ressuscitar.” 24  Marta disse-lhe: “Eu sei que ele vai ressuscitar na ressurreição do último dia”.
Marta é cuidadosa, procurando não elevar muito suas esperanças. Ela provavelmente pensou consigo mesma: “Jesus parece estar dizendo que meu irmão será ressuscitado, mas ele poderia estar se referindo a um futuro distante”.
“25  Disse-lhe Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá,26  e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá”.
O ponto de Jesus era simples. Marta deve parar de pensar nele como o único que pode pedir a Deus  a ressurreição e receber uma resposta favorável do alto. Ela deve entender vez que Jesus é o Logos de Deus, o Deus que dá a vida. Nas próprias palavras de Jesus – “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.
“Você acredita nisso? 27  Disse-lhe: “Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo” 28  Quando disse isso, ela foi e chamou sua  irmã Maria, dizendo em segredo, “O Mestre está aqui e está chamando por você.” 29  E quando ela ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi até ele. 30  Ora, Jesus ainda não havia entrado na aldeia, mas ainda estava no lugar onde Marta o encontrara”.
Aparentemente, Jesus manteve-se fora da aldeia por um tempo, uma vez que decorreu um tempo suficiente para que ocorressem encontros e conversas. O vs. 30 é outro comentário entre parênteses em  que o autor está esclarecendo o significado de sua história enquanto ela se desenrola.
“31 Então os Judeus que estavam com ela na casa, consolando-a, viram Maria levantar-se depressa e sair e seguiram-na, supondo que ela ia ao túmulo para chorar ali”.
O que é importante aqui é que o autor destaca o fato de que quando Jesus falou com Maria fora da aldeia, alguns dos hoi Iouidaioi que tinham vindo para consolar a família a seguiram. Isso indica que eles testemunharam essa  conversa. Os hoi Ioudaioi que seguiram Jesus fora da vila tanto viram o que aconteceu como ouviram a maior parte da conversa entre Jesus e Maria.
“32  Ora, quando Maria chegou onde Jesus estava e o viu, lançou-se aos seus pés, dizendo-lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”.
Maria repete o lamento de Martha (João 11:21). Podemos imaginar que isto tenha sido tratado em seu círculo familiar.
“33  Quando Jesus a viu chorar e os Judeus que tinham vindo com ela, também chorando, ele moveu-se muito em espírito e perturbou-se”.
Aqui vemos Jesus participar do sofrimento da humanidade e seu vínculo com os hoi Ioudaioi como nunca se viu antes neste Evangelho. Jesus viu Maria e membros do hoi Ioudaioi  lamentarem sentidamente a passagem de Lázaro. Ele ficou profundamente perturbado.
O modo como os enterros ocorrem em determinada cultura nos dão  uma boa indicação da visão do mundo do povo. A cultura cristã é sempre solene, mas festiva quando se trata do enterro de um homem justo. O luto é sempre misturado com esperança e celebração. Na cultura Judaica, enquanto que a ressurreição dos justos também é  afirmada, há uma forte crença de que, quando um homem justo morre o mundo sofre uma perda.
O equilíbrio entre o bem e o mal pende, pelo menos naquele momento, para o mal. Enquanto um homem justo é levado do mundo antes do mal, aqueles que permanecem perderam significativamente e, em certo sentido, são deixados à própria sorte.
“34 E ele disse: “Onde o pusestes?” Disseram-lhe: “Senhor, vem e vê”.
Será útil aqui uma breve incursão nas práticas funerárias Judaicas do primeiro século. Os Judeus do primeiro século na Terra de Israel enterravam as pessoas duas vezes. Quando alguém morria o corpo era primeiro acondicionado num pano e colocado numa caverna durante um período de tempo prolongado. Depois que o corpo estava decomposto e restando somente os ossos, eles eram recolhidos em uma caixa especial chamada ossuário. O ossuário era então colocado junto com os outros ossuários dos membros da família, e colocado no túmulo da família. Jesus, percebendo que o primeiro enterro já havia ocorrido, perguntou onde tinham colocado o corpo. Eles responderam: “Senhor, vem e vê”. A palavra Senhor, usada aqui no Grego, não é uma confissão de fé que Jesus é o Deus encarnado, mas simplesmente um termo de referencia  respeitoso.
“35 Jesus chorou. 36  Então os judeus disseram: “Vejam como ele o amava!”
Não existe nenhuma outra parte das Escrituras que mostra Jesus tão profundamente emocionado. Sua plena divindade e plena humanidade encontram-se aqui na expressão de sua dor. Ele não apenas pranteou. Ele chorou. Sua reação (embora soubesse que estava prestes a ressuscitar Lázaro) foi totalmente compatível com a prática Judaica de luto e pranto. Os hoi Ioudaioi que testemunharam esta interação concluíram que Jesus realmente amava a mesma pessoa que eles tanto apreciavam  por seu serviço à comunidade dos pobres e sofredores.
“37 Mas alguns deles disseram: “Não poderia ele, que abriu os olhos ao cego também ter impedido que este homem morresse?”
Pode-se ver que a crise da oposição dos hoi Ioudaioi  a Jesus foi se aprofundando. Agora não eram somente  aqueles da Galiléia Judaica e alguns membros do sistema que começaram a ter interesse em Jesus. Muitos dos que vieram para o consolar a família de Lázaro estavam tendo uma visão positiva de Jesus. Seu lamento foi “Não poderia ele, que abriu os olhos ao cego também ter impedido que este homem morresse?” Lembre-se, eles não estavam falando sobre a ressurreição. Seu raciocínio é, portanto, muito lógico. Se Jesus podia dar visão para o cego de nascença, que nunca tinha visto a luz, certamente ele poderia ter curado um homem que estava doente. Uma ação era muito maior que o outra. No entanto, nenhum deles percebeu o que Jesus estava prestes a fazer.
“38 Então Jesus, novamente profundamente comovido,  foi  ao sepulcro. Era uma gruta, e tinha uma pedra posta sobre ela. 39  Jesus disse: “Tirai a pedra”. Marta, irmã do defunto, disse-lhe: “Senhor, por este tempo haverá um odor, pois ele está morto há quatro dias”.
Marta disse a Jesus para ficar longe da entrada do túmulo uma vez que o cheiro de um corpo em decomposição seria esmagador. Ela mais uma vez ressaltou que Lázaro estava morto há 4 dias. Deve ser lembrado que a chegada de Jesus foi perfeitamente programada para a ressurreição  ocorrer no 4 º dia, quando se acreditava que a ressurreição não seria mais possível.
“40  Jesus lhe disse: “Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?” 41  Então tiraram a pedra. E Jesus, levantando os olhos  disse: “Pai, eu te agradeço porque me ouviste. 42  Eu sei que sempre me ouves, mas eu disse isso por causa das pessoas que estavam ao redor, para que creiam que tu me enviaste”.
Anteriormente Jesus tinha dito a Marta que ter chegado no quarto dia não iria limitá-lo. A ressurreição não era algo que ele faria com a ajuda de seu pai. A Ressurreição e a Vida são ambas a essência do que é Jesus. Ele é de fato a Palavra / Logos / Memra do Deus de Israel, e ele estava destinado a mostrar ao mundo a glória de seu Pai.
“43  E, havendo dito estas coisas, clamou com grande voz: “Lázaro, vem para fora”.
Alguns túmulos eram extremamente profundos e eles literalmente incluíam um túnel para chegar ao verdadeiro lugar onde os corpos estavam depositados. Portanto, não é surpreendente que quando a pedra, que funcionava como uma porta, fosse revolvida Jesus chamaria Lázaro em voz alta. Isto não era para tornar este evento mais dramático, mas era para que Lázaro ressuscitado pudesse fisicamente ouvir de longe a voz do seu Doador da vida.
“44  O homem que tinha morrido saiu, com as mãos e os pés amarrados com tiras de linho, e seu rosto envolto num lenço. Jesus disse-lhes: “Desligai-o e deixai-o ir”.
João (ou quem escreveu este Evangelho que mais tarde foi atribuído a João) era uma testemunha que estava preocupada com detalhes. Ele menciona algo que nenhum outro Evangelho diz. Lázaro, quando saiu do sepulcro, não estava coberto com um pedaço de pano, mas com dois. Seu rosto tinha um pano  separado da mortalha do corpo. Hoje, quando os enterros Judaicos antigos são descobertos, esta descrição tem se  confirmado. Os  Judeus de fato enterravam do jeito que  João descreveu. João era um habitante do local. Ele era de dentro. Ele era uma testemunha ocular.

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